INTERNET DAS COISAS E

O PLANO NACIONAL DE IOT

A disseminação e o uso massivo de Internet das Coisas (ou Internet of Things – IoT, em inglês) irá transformar a economia e o dia a dia da população de maneira tão ou mais impactante do que robótica avançada, tecnologias Cloud e até mesmo do que a internet móvel. O professor da Harvard Business School, Michael Porter, um dos maiores pensadores do mundo dos negócios, considera Internet das Coisas “a mudança mais substancial na produção de bens desde a Segunda Revolução Industrial”. Tanto gigantes multinacionais como startups já estão aproveitando essa tendência emergente de soluções tecnológicas que envolvem conexão máquina a máquina para criar novos modelos de negócios e otimizar os que já existem. Está em curso um processo irreversível de destruição criativa, termo usado pelo economista Joseph Schumpeter (1883-1950) para descrever a transformação industrial que destrói estruturas econômicas para criar outras.

Um estudo do McKinsey Global Institute estima que o impacto de IoT na economia global será de 4% a 11% do produto interno bruto do planeta em 2025 (portanto, entre 3,9 e 11,1 trilhões de dólares). Até 40% desse potencial deve ser capturado por economias emergentes. No caso específico do Brasil, a estimativa é de 50 a 200 bilhões de dólares de impacto econômico anual em 2025.

Conforme figura abaixo, nota-se que a Internet das Coisas terá um enorme impacto em todos os setores da economia e na vida das pessoas, gerando uma grande quantidade dados. Um estudo da Telefônica estima que a capacidade global de armazenamento e processamento de dados será de 800 exabytes em 2020. Para fins de comparação, em 2015 era de 80 exabytes. Boa parte desses dados virá dos dispositivos conectados.

A IoT é a base do processo de digitalização da economia, que tem transformado os métodos tradicionais de produção. Esses métodos passam a ser amplamente baseados em aplicações digitais, no uso intensivo das tecnologias de informação e comunicação e na interconexão de dispositivos. Inserida no que se convencionou definir como a 4ª Revolução Industrial, a digitalização transformou os processos de produção, com impactos nos três setores básicos da economia: agricultura, indústria e serviços. A conexão entre sistemas de TI, subsistemas, processos, objetos e aplicativos, que se comunicam entre si e com humanos, é o vetor chave dessa transformação.

Além das transformações sociais em curso, é esperado que as aplicações de IoT e as tecnologias digitais promovam ganhos de produtividade e competitividade das nações. Isso ganha ainda maior importância para o Brasil, dado que nas últimas décadas o País vem perdendo sua capacidade de agregação de valor da produção industrial em comparação às demais economias em desenvolvimento. Estimativas da Unido mostram que essa participação passou de 12,2% para 4,4%, entre 1990 e 2014, enquanto a participação da China, por exemplo, subiu de 15,8% para 51,3% no mesmo período. Além disso, o Brasil vem perdendo posições no ranking de competitividade industrial para países emergentes. Entre 2010 e 2013, o Brasil passou do 33º para o 35º lugar. Por sua vez, a China passou do 8º para o 5º lugar no mesmo período.

Mais importante do que os ganhos econômicos são os benefícios para a sociedade que a ampla adoção de IoT pode trazer. Em junho de 2017 a União Internacional de Telcomunicações (UIT), braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para o setor de telecomunicações, relacionou como a IoT pode auxiliar o mundo a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, listando dez principais atividades, cujos pontos principais foram enumerado a seguir.

    1. Promover o desenvolvimento e a adoção de Tecnologias IoT em benefício da humanidade, do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável […]
    2. Apoiar a implementação da IoT no contexto urbano e rural para promover a aplicação de ICTs no fornecimento de serviços para criar cidades e comunidades mais inteligentes e mais sustentáveis[…]
    3. Promover um ecossistema abrangente, dinâmico e seguro de IoT, incluindo suporte a startups e incubadoras[…]
    4. Estimular o desenvolvimento e a implementação de padrões que facilitem a interoperabilidade entre tecnologias e soluções IoT para pavimentar o caminho para um ecossistema aberto e interoperável[…]
    5. Adotar aplicações inovadoras de IoT para lidar com os desafios associados a fome, abastecimento de água e segurança alimentar[…]
    6. Estimular o interesse no uso da IoT para redução de riscos e mitigação de mudanças climáticas[…]
    7. Identificar e apoiar a tendência crescente de uso de tecnologias IoT na educação[…]
    8. Adotar a aplicação e o uso da IoT na conservação da biodiversidade e no monitoramento ecológico[…]
    9. Contribuir para a pesquisa global e discussões sobre IoT em cidades inteligentes e sustentáveis por meio de iniciativas globais[…]
    10. Promover o diálogo e a cooperação internacional sobre a IoT no desenvolvimento sustentável[…]

    O Plano Nacional de Internet das Coisas – IoT.BR contempla 43% das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, como pode ser visto na figura abaixo. Isso aponta clara e diretamente o quão benéfica a adoção de IoT pode ser para a sociedade brasileira.

    As oportunidades de negócios para IoT no Brasil e no mundo costumam ser separadas por ambientes – um aglomerado de setores correlatos, que tratam de desafios particulares a um determinado ecossistema. O estudo IoT, coordenado pelo MCTIC e pelo BNDES priorizou o direcionamento dos esforços nos seguintes ambientes: cidades, saúde, rural e indústria. A matriz para priorização dos ambientes encontra-se na figura abaixo.

    Para que o Brasil se posicione de forma destacada nessa corrida tecnológica e aproveite suas vantagens em tais ambientes, precisa agir para destravar barreiras que limitam o potencial de desenvolvimento dessa nova tendência tecnológica global. Diversos obstáculos tocam em mais de um (ou até todos) os ambientes mapeados. Portanto, enquanto os ambientes selecionados são chamados de verticais, os temas transversais serão chamados de horizontais. Ao todo, foram mapeadas e discutidas seis horizontais, que se encontram descritas logo a seguir:

    Ciência, Tecnologia e Inovação: Aponta condições para melhoria do ambiente de pesquisa, desenvolvimento e inovação no país.

    Inserção Internacional: Busca estimular a internacionalização de soluções brasileiras de IoT e aumentar as parcerias internacionais entre empresas e Instituições de Ciência e Tecnologia.

    Capital Humano: Aponta aspectos chave em formação básica, técnica e superior da mão-de-obra brasileira para a atuação nos diversos setores que envolvem soluções de IoT.

    Infraestrutura de Conectividade e Interoperabilidade: Indica tecnologias de comunicação existentes para IoT disponíveis no Brasil, bem como as soluções com maior potencial de atender as aplicações e o uso do espectro de frequência no país.

     

    Regulatório, Segurança e Privacidade: Visa identificar questões regulatórias (incluindo fiscais e tributárias) que necessitem ser revisadas para permitir o avanço de IoT.

    Viabilidade Econômica: Busca identificar e flexibilizar instrumentos financeiros e fontes de financiamento tornando-os adequados para os atores envolvidos com IoT no Brasil.

    Após um processo colaborativo de avaliação dos principais desafios de cada vertical e das horizontais, elencou-se um conjunto de iniciativas relevantes para destravar e estimular o desenvolvimento de IoT. O levantamento contabilizou cerca de 200 iniciativas. Após múltiplos processos de refinamento realizados em conjunto com MCTIC, BNDES e com a participação da Câmara IoT, chegou-se a 60 iniciativas pertencentes ao plano que deverão impulsionar o desenvolvimento de IoT no Brasil. Todas as iniciativas foram levantadas em discussões que envolveram centenas de atores e estão organizadas por horizontal do estudo.